A importância das plantas nativas
- Nicole B. L. Sigaud

- 14 de mai. de 2020
- 6 min de leitura
Atualizado: 1 de jul. de 2020
Atualmente, aproximadamente 70% da população brasileira vive na área do bioma Mata Atlântica, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. O que já foi o segundo maior bioma da América do Sul se resume, hoje, a apenas cerca de 12% de sua cobertura original, de acordo com dados da SOS Mata Atlântica.
O Brasil, sem contar a Amazônia, ou seja, o território que reúne Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal, perdeu 59% da sua vegetação original, o equivalente às regiões Nordeste e Sudeste juntas, de acordo com dados do IBGE. Na floresta Amazônica foram desmatadas 20% das áreas, uma área maior que a França e Alemanha juntas.
No Brasil, dois domínios naturais são classificados como Hotspots, o Cerrado e a Mata Atlântica. Esse é um conceito desenvolvido pelo biólogo britânico Norman Myers, através de um estudo que aponta os principais centros de biodiversidade do planeta, que são prioridade para a conservação em níveis mundiais, devido a suas elevadas ameaças de extinção. Se enquadram nessa categoria áreas que abrigam pelo menos 1.500 espécies endêmicas (que só existem naquele local) e que já perderam mais de 75% de sua vegetação original. Em apenas 1% de suas áreas, os Hotspots abrigam metade da biodiversidade do planeta.
O Brasil, abriga 20% das espécies do planeta, é um dos países mais ricos do mundo, porém é o que apresenta o quadro mais preocupante de perda de biodiversidade. A América Latina já sofreu uma redução populacional dos vertebrados de 83% desde 1970, segundo o WWF. A taxa de extinção de espécies vegetais é atualmente 1.000 vezes maior do que o nível registrado historicamente, de acordo com o Livro Vermelho da Flora do Brasil.
Devido ao processo de colonização que sofremos no Brasil, os verdadeiros donos e conhecedores dessa terra foram dizimados, assim como nosso patrimônio natural, que era desconhecido e ameaçador para os forasteiros que vieram e trouxeram consigo seus padrões estéticos, culturais, alimentares e referências de paisagem.
Hoje no Brasil, 52% ou mais do que consumimos é de origem euroasiática. Das 20 frutas mais consumidas aqui, somente 3 são nativas. Dados indicam que 90% do alimento mundial vêm de 20 espécies vegetais. Temos uma alimentação monótona, globalizada, sem personalidade. No entanto, estudos estimam que o Brasil teria cerca de 10.000 espécies nativas com potencial alimentício, que ainda pouco conhecemos. O mesmo cenário se aplica às plantas ornamentais.
Em nossos jardins são cultivadas praticamente só plantas estrangeiras, como se não houvesse valor na tão rica natureza brasileira, o que nasce aqui é considerado mato, pode ser destruído, enquanto o mato que vem de outro país, esse sim, é chique e deve se perpetuar.
As áreas urbanas ocupam porções significativas do território nacional, no atual cenário de degradação ambiental, se faz imprescindível resgatar ao máximo as espécies nativas da flora brasileira que outrora existiam e foram varridas para fora de nossos jardins e cidades. Não é tempo de continuar fazendo o mesmo de sempre, a recuperação ambiental é urgente e deve ser priorizada. Existe um grande poder e responsabilidade nas mãos do paisagismo.
Trazer ao convívio das pessoas essas plantas é também um fator educativo, somente assim poderemos aprender de fato sobre elas, que hoje são conhecidas apenas por especialistas. Quem não conhece uma Azaleia? Uma roseira? Mas quem conhece a Guaricanga? Só assim poderemos nos aproximar e construir vínculos afetivos com essas plantas, para que, as crianças que crescerem em contato com elas, se tornem adultos que queiram ter em seus jardins plantas nativas que trazem lembrança da casa da avó ou da mãe, invés de alguma planta estrangeira.
Existem milhares de espécies nativas com folhas e flores extremamente vistosas e ornamentais, algumas das já comercializadas, e facilmente encontradas no mercado, possuem características estéticas similares às de outras exóticas (não nativas) que são mais comumente utilizadas, sendo que poderiam tranquilamente substituir estas exóticas. Mas o esforço produtivo sobre as exóticas sempre foi maior, então muitas vezes a nativa não é encontrada nos melhores padrões estéticos. Precisamos quebrar a lógica de valorização da estética acima de tudo, mesmo porque o mercado obedece a lei da oferta e da procura, mudando o conceito direcionamos o mercado.
Dentre os benefícios que a utilização de plantas nativas em um jardim podem trazer, podemos destacar o fato de que geralmente requerem menos manutenção, pois as plantas que são nativas de um determinado local, quando estão devidamente em um ambiente com as mesmas características, são adaptadas ao tipo de solo, clima e regime de chuvas do mesmo, portanto exigem menos gastos com irrigação e adubação, favorecendo a sustentabilidade e diminuindo custos. Na natureza não chove todos os dias, não é natural precisarmos ficar provendo água para as plantas, isso ocorre quando estamos justamente promovendo algo que não é natural ou quando o ambiente está degradado.
Um cuidado que se deve ter quando se fala do plantio de nativas é não considerar que qualquer planta nativa do território brasileiro é adequada para ser plantada em qualquer local do país. Nosso país é vasto e abriga diversas paisagens e ambientes com condições diferentes, é preciso observar a natureza e procurar entendê-la.
Vale a pena ressaltar ainda, que é muito mais fácil uma planta que não é nativa do local desenvolver doenças do que uma nativa, especialmente quando se trata de espécies que são nativas de outros continentes, ou seja, de condições ambientais completamente diferentes, reduzindo a necessidade de aplicação de defensivos químicos.
É claro que na natureza sempre existem exceções, existem espécies exóticas que muitas vezes encontram no nosso país condições ambientais mais favoráveis para o seu desenvolvimento do que no seu próprio local de origem, porém muitas vezes essas espécies acabam se propagando descontroladamente, causando desequilíbrio.
O ambiente alterado das cidades também tem características diferentes das naturais originais, o que faz com que em alguns casos mesmo plantas nativas tenham dificuldade de adaptação e algumas alternativas como utilizar plantas provenientes de climas áridos sejam consideradas uma solução sustentável. O mesmo pensamento se aplica para locais com solos degradados, em que se dá preferência ao plantio de uma espécie pouco exigente. Porém devemos abraçar a degradação? Ou tentar regenerar? Precisamos e podemos fazer diferente. Quanto mais profissionais adotarem esses princípios, mais rápido essa conduta vai se tornar o padrão, transformando o mercado e o consumidor. E quando olharmos para trás, o estranho vai ser pensar em fazer da maneira como fazíamos.
Além disso, o resgate das espécies nativas se constitui em uma importante ferramenta de suporte para a fauna. Animais que são naturais de um determinado habitat são adaptados para se alimentar, utilizar como abrigo, para a confecção de ninhos, antídoto, ou outras funções, espécies de plantas que ocorrem nesse mesmo ambiente. Isso se deu por meio de um processo de evolução conjunta, através de milhões de anos.
A relação de espécies entre a flora e a fauna em uma comunidade biológica é diretamente proporcional, os locais que abrigam a maior diversidade de plantas no mundo, são os que abrigam a maior diversidade de espécies da fauna. Em uma paisagem pobre em diversidade vegetal, somente algumas poucas espécies de animais se adaptam. É possível perceber isso nos ambientes degradados de nossas cidades, onde encontramos poucas espécies generalistas que sobrevivem.
Na natureza encontramos inúmeros exemplos de interdependência entre espécies. A Arara-azul-de-lear, espécie endêmica da Caatinga brasileira e ameaçada de extinção, encontra nos cocos da palmeira Licuri os principais elementos para suprir suas necessidades nutricionais, sendo o Licuri considerado indispensável para a sua sobrevivência.
A fruta preferida do lobo-guará chama-se lobeira ou fruta-do-lobo (Solanum lycocarpum). O fruto da Lobeira age como um vermífugo natural contra o verme-gigante dos rins, Dioctophyme renale, que causa graves complicações renais neste lobo. A sobrevivência das duas espécies está intimamente interligada, pois o lobo também é o principal responsável pela dispersão das sementes da lobeira.
Existem algumas espécies de aves que vêm apresentando declínio populacional em razão da perda de locais adequados para construção dos ninhos. O Grimpeiro por exemplo, constrói seu ninho somente com ramos secos da araucária, chamados popularmente de grimpas. E beneficia-se das folhas pontiagudas como proteção contra predadores. O Gaturamo Rei depende das folhas do Gravatá para fazer seu ninho. Assim como milhares de outros exemplos. A natureza é feita de exemplos como esses, de milhares de relações entre seres visíveis e invisíveis, íntimas e complexas. Pensar que plantas exóticas poderão reproduzi-las com a mesma eficiência é descartar os milhões de anos de coevolução.
Plantas nativas em área urbana são também fontes para dispersão de sementes, que serão carregadas através do vento, água, aves e outros, favorecendo a regeneração de áreas na zona urbana e rural, especialmente se utilizarmos espécies ameaçadas de extinção.
Com o paisagismo temos a oportunidade de aprender com a natureza e buscar reproduzi-la em nossos jardins, ir reconstruindo o que perdemos e revertendo o quadro de destruição. O paisagismo tem esse grande poder nas mãos, e pode nos ensinar a conviver com as outras espécies que dividem o planeta conosco, que tem tanto direito quanto nós de estar aqui.



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